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"Houveram alguns transtornos, mas o Beijódromo não poderia ser melhor inaugurado, com a presença do presidente do Brasil e do presidente do Uruguai, onde Darcy viveu muitos anos", diz o professor Gustavo Lins Ribeiro, diretor do Instituto de Ciências Sociais.
Alguns alunos que carregavam faixas e cartazes contra o atraso nas obras dos novos campi foram barrados pela segurança da Presidência. Outros interromperam os discursos com palavras de ordem (leia mais aqui).
Na sua fala, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, tentou acalmar os ânimos lembrando que era um dia de homenagem ao fundador da universidade. Se quisermos valorizar a UnB, a precisamos valorizar a vida e a obra de Darcy Ribeiro, afirmou o ministo, que financiou a maior parte da construção. A partir de hoje, toda a obra de Darcy ficará à disposição de professores e estudantes da UnB e da comunidade.
Marcus Terena, líder indígena, não esqueceu as broncas que levou quando convidou lutadores de sumô para a inauguração do Memorial dos Povos Indígenas, em 1989. "O que eles estão fazendo aqui? Quem os convidou sem me consultar?", disse Darcy aos assustados líderes indígenas. Eles queriam promover um desafio sumô versus huka-huka. A ideia foi vetada pelo incansável defensor das coisas genuinamente brasileiras.
O senador eleito Rodrigo Rollemberg (PDT-DF) recorda o tempo em que Darcy era senador e ele apenas um funcionário da casa. "Poucas pessoas entenderam a brasilidade como ele", afirma. Álvaro Tucano conheceu o antropólogo em Amsterdã, em 1980, durante uma conferência internacional sobre os direitos dos índios. "Depois disso, estive várias vezes com Darcy em seu apartamento em Brasília", lembra Álvaro, originário de São Gabriel da Cachoeira (AM), região onde convivem 23 povos indígenas. "Mesmo doente, ele sempre nos recebeu rindo. Gostava muito de falar das mulheres lindas que o Brasil tem".
Depois do exílio, Darcy voltou para Brasília pela primeira vez em 1995, quando recebeu o título de doutor honoris causa da UnB. "A universidade era para ele uma filha que havia perdido seu caminho, mas que depois conseguiu retomá-lo", diz Paulo Ribeiro, sobrinho de Darcy e presidente da fundação que leva seu nome. O segundo retorno de Darcy à capital ocorreu, mesmo que simbólicamente, na inauguração do Memorial na tarde desta segunda-feira, 6 de dezembro.
Em seu último discurso na UnB, Darcy nos convocou a olhar para o futuro, lembrou o reitor José Geraldo de Sousa Junior. Para o antropólogo, a utopia era como o horizonte, inalcançável, mas mesmo assim, não podemos deixar de persegui-la. O último sonho de Darcy está concretizado nesse memorial utopia.
UTOPIA - A utopia de um Brasil caboclo, onde os brancos também aprendem com os índios, pode ser encontrado nas estantes e nas paredes do Beijódromo. Uma declaração do Marechal Candido Rondon, de 1950, mostra como nasceu essa relação. O militar confiara ao antropólogo uma missão de paz junto aos índios bororo e mandou uma gravação de sua voz: "Olhem este homem. É o Darcy. Ele está no meu lugar. Seus olhos são meus olhos. Seus ouvidos são meus ouvidos. Prestem atenção na sua boca. Tudo que ele falar, sou eu, Rondon, quem está falando aos bororo".
O romance Maíra, que mostra o conflito de um índio catequizado em Roma, também está lá, nas suas 48 edições em oito línguas. Darcy sabia vender sua utopia. Em uma carta endereçada a Roberto Retamar, diretor da Casa das Américas de Cuba, pedia uma edição cubana do romance. "Não me consolo de que as moças de Cuba não leiam para seus moços, na cama, esta minha novela".
Obrigado Darcy, a UnB agradece. Um beijo carinhoso.
UnB Agência