
Cisneros, agora professor na Universidade Federal do Piauí (Ufpi), conta que encontrou o lado esquerdo do crânio de Tiarajudens bastante completo, com uma fileira de dentes no céu da boca que aparentemente eram substituídos de trás para frente. Até agora não tinham sido encontrados dentes palatais desse tipo em nenhum outro terapsídeo, o grupo de animais intermediários entre os répteis e os mamíferos a que o novo fóssil faz parte. E a boa conservação do crânio permitiu ver mais, apesar de não terem sido encontrados os dentes inferiores: “Os dentes do palato de Tiarajudens têm evidência de desgaste, o que significa que o animal mastigava muito, e esse complexo sistema de dentição só seria funcional se os dentes superiores contassem com dentes similares na parte interna da mandíbula”, conta o paleontólogo. “Tiarajudens devia mastigar usando o céu da boca e a mandíbula”, conclui. Vale lembrar que répteis não mastigam: jacarés, por exemplo, usam os dentes para esmagar a vítima e ajeitá-la na boca, mas não para triturar o alimento. A mastigação é uma característica que surgiu na trajetória evolutiva que deu origem aos mamíferos.
Acrescentar presas achatadas à frente desses dentes palatais chega a parecer exagero de um menino imaginativo desenhando animais extintos. Mas o crânio fossilizado está aí para comprovar que Tiarajudens era mesmo excêntrico. Existiram outros herbívoros com dentes de sabre no final do Paleoceno, há 57 milhões de anos. O novo exemplar, do Permiano, joga 200 milhões de anos para trás a existência dessa estranha combinação de dentes. Os pesquisadores – Cisneros trabalhou com colegas da UFRGS, da Ufpi e da Universidade de Witwatersrand, na África do Sul – adiantam suposições sobre o uso desses grandes dentes, inesperados para um herbívoro: manipular alimentos, espantar predadores ou se exibir para adversários da mesma espécie.
Propostas que devem continuar a ser suposições, mas o pesquisador promete novos capítulos da história quando terminar de analisar outros ossos do lado esquerdo do animal, inclusive as patas dianteira e traseira. O nome da espécie homenageia o distrito onde o fóssil foi encontrado – Tiarajú, no município gaúcho de São Gabriel, cerca de 300 quilômetros a oeste de Porto Alegre ¬– uma zona praticamente inexplorada por paleontólogos. Até agora. “Estamos procurando novas fronteiras paleontológicas na região”, promete Cisneros.
Revista Pesquisa FAPESP
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